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Do céu para o lar: as muitas
lendas de Shakti
parte 1 / parte 2
/ parte 3
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Autor:
Nitin Kumar
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Uma vez, o grande guru Shankaracharya foi a Kashmir,
desejando entrar em discussão com os Shaktas, seguidores da Deusa
(Shakti). No entanto, logo que chegou ao local, foi imobilizado
por um acesso muito forte de disenteria. Foi afetado de forma tão
grave, que ficou incapaz de se levantar do leito, e até perdeu o
poder de falar.
Pouco depois, uma garota com doze anos de idade chegou perto dele e
sussurrou em seu ouvido: “Ó Shankara, você pensa que pode
negar o culto da Shakti?”
Sentindo-se incapaz, Shakaracharya disse:
“Devi, eu vim aqui com esse objetivo, mas neste instante eu me sinto sem
nenhum poder (shakti). Quando eu ganhar novamente o poder de falar,
então eu serei capaz de fazer isso. Se esse poder, eu não
posso fazer nada.”
A garota encantadora lhe respondeu assim:
“Ó reverendo mestre (acharya), se você mesmo não
consegue se mover uma só polegada sem seu poder (shakti),
como
você poderá refutar o culto da Shakti? Ó sábio,
saiba que eu sou a Shakti de Shiva – o Poder Supremo que ativa este mundo.
Como você quer me negar, se é movido por minha própria
energia?”
Com sua mente agora equilibrada, Shankaracharya
fez uma reverência para a Deusa, e logo depois de se recuperar, deixou
Kashmir.
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Shankaracharya
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O risco de ignorar a Shakti
É tão difícil nos distinguirmos
de nossa Shakti, que muitas vezes temos a tendência de considerá-la
como algo que nos pertence, com sinistras conseqüências. O Devi
Bhagavata Purana, um texto primário que fala sobre a Deusa,
descreve um episódio no qual os grandes Devas Shiva e Vishnu foram
atacados por um poderoso exército de demônios (Asuras).
Apenas depois de batalhar com eles durante muito tempo, eles foram capazes
de vencer as forças malignas. Embora a vitória tenha sido
devida a seus respectivos poderes (shaktis), eles ficaram vaidosos
e pensaram que fosse uma vitória individual deles próprios,
chegando ao ponto de se vangloriar de suas proezas diante de suas respectivas
companheiras. As duas deusas, Parvati e Lakshimi, acharam a situação
cômica e riram da ingenuidade deles. Então os deuses ficaram
com raiva e se dirigiram às suas esposas de um modo rude. Imediatamente
elas desapareceram de perto deles.
Logo que isso aconteceu, o universo mergulhou
em um tumulto. Sem os seus poderes, os dois deuses ficaram sem brilho e
caíram em um estado sem vitalidade. Só depois que realizaram
um penoso sacrifício, a Grande Deusa (Shakti) ficou satisfeita
e devolveu seu poder a eles, dizendo: “O insulto que vocês fizeram
às minhas manifestações levou a esse estado calamitoso.
Um crime como este nunca mais deve ser cometido.” Então Shiva e
Vishnu, agora livres de vaidade, adquiriram novamente suas naturezas anteriores,
e então foram capazes de realizar suas funções como
antes.” (Devi Bhagavata Purana 7.29.25-45)
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Os Devas homenageando a Deusa |
Shakti – o poder do fogo
Há outro texto que descreve que, depois
da criação dos seres terrestres e celestes, houve uma dúvida
sobre como estes últimos poderiam se sustentar. As criaturas da
terra podiam se alimentar com aquilo que estava disponível lá,
mas ainda não havia sido previsto nenhum alimento para os Devas.
Brahma, o criador, estabeleceu então que as oferendas derramadas
no fogo do sacrifício (na terra) seriam o alimento dos Devas. Para
isso, eles cultuaram a Grande Deusa, que apareceu diante deles sob a forma
da deusa Svaha.
Os Devas reunidos então se dirigiram
a ela assim: “O Deusa, que você própria se torne o poder de
queimar do fogo, o qual não é capaz de queimar nada sem você.
Ao fim de qualquer mantra, aquele que chamar o seu nome (Svaha)
e derramar oferendas sobre o fogo, fará com que essas oferendas
vão diretamente para os Devas. Mãe, permita que você
mesma, que é a fonte de toda prosperidade, reine sobre tudo como
a Senhora do lar do Fogo (Agni).
Depois Agni, o Deva do fogo, aproximou-se
dela com temor e a adorou como Mãe do Universo. Então, com
os cantos dos mantras sagrados, eles se uniram pelos nós do matrimônio
sagrado. Acredita-se que, a partir de então, quem derrama libações
no fogo do sacrifício acompanhadas pelo nome sagrado Svaha tem todos
os seus sonhos satisfeitos, imediatamente. (Devi Bhagavata Purana
9:43)
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Agni, o Deva do Fogo
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Shakti – o poder dos Devas
A Kena Upanishad, um importante texto da filosofia
da Índia, narra uma história mais profunda, na qual os deuses,
depois de derrotar os demônios, se encheram de vaidade. O Ser mais
elevado (Brahman), aquela entidade sem forma que ultrapassa qualquer
gênero, percebeu sua loucura e revelou a si próprio diante
de seus olhos, para dar-lhes a oportunidade de se arrependerem. No entanto,
cegos pelo véu do egoísmo, os Devas foram incapazes de compreender
a visão que lhes foi revelada.
Primeiramente Agni, o deva do fogo, foi encarregado
pelos Devas de questionar quem era o ser divino que estava diante deles.
Quando Agni se aproximou do Grande Ser (Brahman), este lhe perguntou
qual o poder que ele possuía. A resposta foi: “Eu posso queimar
todo o universo”. Então o Brahman que havia se manifestado colocou
entre eles uma folha de grama e lhe pediu que a queimasse. Usando todo
o seu poder, o fogo tentou ao máximo incendiar a folhinha, mas não
conseguiu. Sem conseguir reconhecer Brahman, ele retornou derrotado aos
outros Devas que esperavam.
Em seguida veio o deus do vento, Vayu. Ele
também se vangloriou, dizendo que era capaz de carregar qualquer
coisa, com seu grande poder. Confrontado com a pequena folha, ele também
falhou e se retirou.
Então foi a vez de Indra, o rei dos
deuses, de se aproximar do Grande Ser. No entanto, quando ele tentou fazê-lo,
Brahman desapareceu, e surgiu no céu a linda deusa Uma, também
conhecida como Parvati. (Kena Upanishad 3.1-12) |
Agni tenta queimar a folha
Vayu tenta soprar a folha
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O Devi Bhagavata Purana descreve a forma física
desta deusa:
Ela era uma virgem que desabrochava com o
frescor da juventude, e o brilho de seu corpo era como o do Sol que surge
no horizonte. Brilhando sobre o topo de sua cabeça estava o crescente
da Lua. Ela segurava um laço e um aguilhão em duas de suas
mãos, e as outras duas mãos mostravam os gestos (mudras)
de concessão de dádivas (varada) e de ausência
de medo (abhaya), respectivamente.
Seu corpo, enfeitado com vários ornamentos,
parecia auspicioso e adorável. Ela era como a árvore que
concede todos os desejos (Kalpa Vriksha). Com três olhos,
sua face tinha a beleza de dez milhões de deusas do amor (Kamadeva).
Sua roupa era vermelha e seu corpo estava
coberto com pasta de sândalo. Ela era a causa de todas as causas,
e a incorporação da compaixão (karuna-murti)
Quando Indra a viu, os pelos do seu corpo
se eriçaram com êxtase. Seus olhos se encheram de lágrimas
de amor e profunda devoção, e imediatamente ele se prostrou
aos pés da Deusa, cantando hinos em seu louvor. (Devi Bhagavata
Purana 12.8.52-60)
Então a Deusa instruiu Indra sobre
a essência da Realidade Suprema, enfatizando que foi o poder de Brahman,
manifesto nela própria, que tinha sido responsável pela vitória
sobre os demônios, e que os deuses eram apenas instrumentos em um
projeto superior. |
A Shakti suprema
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