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Kali: a mulher mais poderosa do
universo
parte 1 / parte
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parte
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| KALI: APARÊNCIA
E PERSONALIDADE
As manifestações de Kali são
numerosas. No entanto, sua aparência externa, tanto nos textos quando
na arte, assim como sua natureza básica e personalidade geral, não
variam muito. Na sua forma usual de cor negra, Kali é uma divindade
terrível que inspira temor, que assusta a todos por sua aparência.
Ela está sempre nua, embora algumas partes de seu corpo sejam cobertas
por seus ornamentos. Uma figura macilenta, com longo cabelo desgrenhado
e uma face repulsiva, Kali já foi concebida com qualquer número
de braços, de dois até dezoito, e algumas vezes até
mais de vinte, embora sua forma mais usual tenha quatro braços.
Eles são interpretados como simbolizando sua capacidade de agir
e dirigir as quatro direções do espaço, ou seja, todo
o cosmos.
Ela tem longas presas afiadas, e longas e
feias unhas, um terceiro olho na testa que emite fogo, uma língua
esticada e uma boca suja de sangue que, quando se expande, não apenas
engole multidões de demônios, mas que abrange desde as profundezas
do oceano com sua parte inferior até o fim dos céus, com
a superior. Quando precisa lamber o sangue que cai do corpo de um demônio
que foge, ela estica sua língua tanto quanto seja necessário
e a gira mais depressa do que o vento, para qualquer direção
em que o sangue caia. |
Kali
A aniquilação de Raktabija
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Na sua iconografia mais usual, Kali carrega
em uma de suas quatro mãos uma espada desnuda – seu instrumento
para vencer os inimigos e comandar os males; em outra, a cabeça
cortada de um demônio, e as outras duas mostram gestos que indicam
ausência de medo e benevolência (abhaya e varada).
Algumas vezes, a cabeça decepada é substituída por
uma cuia feita de crânio, cheia de sangue.
Abhaya é a essência de todo o
ser de Kali. Abhaya é uma das suas disposições mentais
permanentes, é sua garantia contra todos os temores que, incorporados
nela, se tornam inoperantes ou que apenas agem sob o seu comando. Indicando
seu poder ilimitado de destruição, o aspecto assustador de
Kali é seu poder para dispersar o mal e o perverso, e com isso se
assegura novamente a ausência de medo.
O lugar usual de Kali é um campo de
batalha, onde estão espalhados por toda parte lagos de sangue, corpos
sem cabeça, cabeças decepadas, braços e outras partes
cortadas. Quando não está no campo de batalha, Kali vagueia
pelos campos de cremação, onde reina o silêncio da
morte, exceto quando ele é quebrado pelos ventos que assobiam, pelos
resmungos dos chacais e pelo som das asas dos abutres que rasgam os cadáveres.
A escuridão abissal desses lugares, ocasionalmente iluminada pelas
chamas das piras funerárias, é o que mais convém a
Kali. No campo de batalha e em outras situações, ela caminha
descalça. Exceto raramente, quando toma emprestado ou pela força
o leão de Durga ou o búfalo Nandi de Shiva, Kali não
usa um veículo, um animal ou qualquer outra coisa, seja para se
deslocar ou para ajudá-la na sua batalha.
Ela dança para destruir, e sob seus
pés que dançam há o cadáver da destruição.
De pé ou sentada, ela tem debaixo de si um cadáver esticado
com o pênis ereto – não a flor de lótus, que é
o assento favorito da maioria das divindades. Ela se coloca sobre a não-existência
– o cadáver do universo destruído, mas que apesar disso contém
a semente de um novo nascimento. |
Mãe Kali
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Na sua iconografia, enquanto o cadáver
representa a não-existência ou o universo destruído,
a figura de Kali unida a Shiva ou ao seu cadáver (Shava)
simboliza o contínuo processo de criação. O universo
manifesto é aquilo que é envolto pelo tempo, mas quando Kali,
o Poder do Tempo, destruiu o universo manifesto, esse véu se ergue
e o Tempo, assim como Kali, o Poder do Tempo, se torna des-nudo, um fenômeno
indicado pela nudez de Kali.
Por sua natureza, Kali está sempre
faminta e nunca é saciada. Ela ri tão alto que todos os três
mundos estremecem de terror. Ela dança loucamente, não apenas
pisando sobre cadáveres, mas também sobre o cosmos vivo,
reduzindo-o à não-existência. Ela espreme, quebra,
pisa e queima seus inimigos ou os de seus devotos.
Kali não apenas é uma divindade
de natureza independente, mas é também indomável,
ou melhor, ela domina tudo. Ela é poderosa como Shiva, foge às
convenções e fica mais à vontade quando reside à
margem da sociedade. Seu estilo de vida não tem aspectos de nobreza
ou do modo de vida da elite. Ela é consorte ou companheira de Shiva,
mas não tem o jeito meigo e humilde de Parvati. Sendo ela própria
selvagem e destruidora, ela incita Shiva a um comportamento selvagem, perigoso
e destrutivo, ameaçando a estabilidade do cosmos. Eternamente uma
guerreira, Kali não perde uma oportunidade para lutar. Ela é
um dos guerreiros de Shiva em sua batalha contra Tripura.
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Mahakali - a forma cósmica da deusa
Kali
Shri Bhairavi Devi
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| AS FORMAS DE KALI
Um imenso corpo de mitologia sobre Kali se desenvolveu na tradição
popular, mais do que nos textos. Em toda aldeia, mesmo que tenha apenas
uma dúzia de cabanas, há um canto no qual se vê uma
imagem grosseira de Kali pintada em preto, com a língua vermelha
como o sangue. Também se espalham por toda parte as histórias
de seus poderes misteriosos, tanto de produzir danos quanto de proteger
dos males. Sua presença é mais significativa ainda na arte
indiana, onde ela aparece associada a muitos temas hindus importantes.
Aquilo que algumas vezes aparece nos textos como meros epítetos
de Kali, são formas bem esta-belecidas dela, na arte indiana. Mahakali,
Bhadrakali, Dakshina Kali, Guhyakali, Shmashana Kali, Bhairavi, Tripura-Bhairavi,
Chamunda... são algumas de suas formas mais populares, tanto nos
textos quanto nas artes.
Na sua forma de Mahakali, ela é equivalente
a Mahakala – o aspecto onipotente de Shiva, que devora o tempo e dissolve
tudo. Kali é a transformação feminina de Mahakala.
Em sua forma de Mahakali, ela preside à Grande Dissolução
que é simbolizada por Shiva sob a forma de Shava. Na arte, Kali
invariavelmente o conserva como uma relíquia. Inicialmente, como
Mahakali, seu papel estava limitado à destruição do
demônio. Nos Puranas, embora ainda representando dissolução,
destruição, morte e envelhecimento, ela personifica mais
enfaticamente horror, medo, repugnância. Ela ainda mata demônios,
mas principalmente quando é convocada, e mantida sob controle. Em
sua forma de Chamunda – a destruidora de Chanda e Munda – ela era um matador
de demônios feroz, com muitos braços. Ela carregava nas suas
mãos muitas armas mortais e em seus olhos uma luz que queimava seus
inimigos.
Sob a forma de Shmashana Kali, mais popular
no Tantrismo, Kali freqüenta um terreiro de cremação
entre as piras que queimam – o domínio intermediário entre
este mundo e o próximo, onde a morte e a dissolução
reinam. |
Kali, Mahakali ou Shmashana-Kali
Dakshina Kali
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Como Tripura Bhairavi, consorte da morte,
Kali é concebida com uma forma que porta um longo colar de corpos
humanos, um menor de crânios, uma guirlanda de mãos cortadas,
e brincos de cadáveres de crianças. Em volta dela há
muitos cadáveres dos quais se alimentam chacais astutos e abutres
repulsivos. Tripura Bhairavi às vezes usa uma tanga, mais geralmente
está coberta por uma pele de elefante, e tem outros atributos associados
a Shiva.
Dakshina Kali, que é enfeitada por
jóias, também usa um longo colar de cabeças cortadas,
uma guirlanda de braços muito pequenos cortados, e um par de cadáveres
como brincos, mas em vez de ser repulsiva sua aparência expõe
membros jovens e macios, com proporções perfeitas. Ela está
sobre o corpo de um Shiva deitado, com o pênis ereto, em uma pira
queimando no terreiro de cremação, onde aves de rapina pairam
e os chacais vagueiam. Em uma de suas mãos, Dakshina Kali tem uma
espada, em outra uma cabeça humana, e nas outras duas mostra os
gestos de Abhaya e Varada. |
Bhadrakali
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Bhadra Kali, a auspiciosa, que é
a forma majestosa, benigna, benevolente e suave de Kali, foi concebida
com um número de braços que costuma variar de dois a quatro.
Ela geralmente carrega duas tigelas, uma para vinho e a outra para sangue.
A forma de Kali que os deuses cultuam invariavelmente, mesmo Shiva, Vishnu
e Brahma, é a de Bhadra Kali. Ela se delicia, ela bebe, dança
e canta com alegria.
Guhyakali, que significa literalmente “a Kali
secreta”, é o aspecto esotérico de Kali, que é conhecido
apenas pelos que conhecem bem a tradição de Kali. Na sua
forma que se revela quando se medita nela (dhyana), as serpentes
constituem uma parte significativa de seus adornos. Seu colar, o cordão
sagrado e o cinto são todos feitos de serpentes, e a serpente Ananta
com mil cabeças é seu guarda-sol. Além disso, sua
forma assimila outros atributos de Shiva, incluindo um crescente lunar
na sua testa. Na representação visual, em vez da ênfase
em serpentes, Guhyakali é identificada pelo Kali Yantra, com o qual
é invariavelmente representada. |
Guhyakali - a forma secreta da deusa
Kali
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