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Kali: a mulher mais poderosa do universo
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ORIGEM DE KALI 

     O misticismo encobre não apenas sua forma, mas também a origem de Kali. Há três linhas mais significantes que foram traçadas para encontrar sua origem, embora Ela transcenda mesmo essas fontes. Algumas vezes Ela é vista como uma transformação, ou uma forma que se desenvolveu a partir de alguma das divindades dos Vedas citada nos Brahmanas e Upanishads, especialmente Ratridevi, a Deusa da noite profunda, também chamada Maharatri, a Noite Transcendental, e Nirtti, a dançarina cósmica. Alega-se que o aspecto mais sombrio de Kali se desenvolveu a partir de Ratridevi, e sua dança, que ele realiza para destruir, teria se originado na dança cósmica de Nirtti que também pisava sobre tudo o que caía sob seus pés. A Mundaka Upanishad fala sobre as sete línguas de Agni, sendo que uma delas atua no local de cremação e devora os mortos. Dando grande ênfase à associação entre Kali e esta língua de Agni com o local de cremação, alguns eruditos procuraram na língua de Agni a origem da forma de Kali. 

Tantric Devi Series - Kalaratri - The Cosmic Night
Kalaratri - a Noite Cósmica
      Embora variem em suas versões, os Puranas percebem Kali como um aspecto da Devi – a Deusa, uma divindade que agora está quase completamente fundida com Durga. No entanto, considerando o status da própria Kali como uma Deusa, assim como o culto muito difundido dela, que prevalece entre várias tribos e grupos étnicos espalhados em áreas rurais remotas, Kali parece ser uma divindade antiga e talvez pré-Vêdica. 
     Como seu nome sugere, ela parece ser o aspecto feminino de Kala – o tempo – aquele ser invencível, imensurável e infinito que tem sido venerado como Mahakala – o tempo transcendental – representado na tradição indiana metafísica e religiosa por Shiva. Na terminologia religiosa, Mahakala é apenas outro nome de Shiva. Alguns ícones do vale do Indus parecem representar, além de Shiva, uma divindade feminina feroz, que poderia ser Kali uma provavelmente uma forma que a precedeu.
 Mahakali
      O Budismo, uma corrente de pensamento que se opôs à percepção dos Vedas na maioria das coisas, introduziu no seu panteão Mahakala e um divindade feminina feroz que se manifesta sob várias formas, como sendo a contraparte feminina de Mahakala. Obviamente, o Budismo deve tê-la introduzido a partir de uma fonte não Vêdica, já que se opunha veementemente aos Vedas. Invocada com grande fervor em muitas ocasiões no Mahabharata, mais especialmente no Bhishma-Parva, um pouco antes do ponto onde o Senhor Krishna apresenta seu sermão do Gita, Kali parce ser uma divindade bem estabelecida durante os dias do épico, ou seja, séculos antes do início da era dos Puranas. Embora invocada como "arya", um termo que indica grande reverência, Arjuna a louva como uma mulher tenebrosa com guirlanda de crânios, com a pele semelhante ao bronze escuro... e com epítetos como Mahakali, Bhadrakali, Chandi, Kapali... características que ainda são relevantes na iconografia de Kali. 
     Um grande número de textos do período que vai do século II ao IX, como Kumarasambhava de Kalidasa, Vasavadatta de Subandhu, Kadambari de Banabhatta, Malitimadhava de Bhavabhuti e Yashatilaka de Somadeva, também fazem alusão a Kali, um fato que indica sua grande popularidade em domínios diferentes da religião. Esta Kali transcende de forma essencial Ratridevi, Maharatri e Nritti dos Vedas, ou uma das sete línguas de Agni, ou uma forma divina que tivesse surgido a partir delas. 
Devi's Victory
A vitória da Devi
      No entanto, não se pode atribuir esta ou aquela origem a Kali. Mesmo se tiver sido uma deusa de origem antiga das tribos primitivas, ela tem uma amplitude e poder muito superior ao que as divindades primitivas benfazejas geralmente tinham. Ela não pode ser tratada como uma mera divindade tribal de origem indígena, a menos que se sacrifique sua absoluta familiaridade e seu status na linha Hindu tradicional. Além disso, não podemos atribuir à tradição sua criação absoluta, pois isso comprometeria seu status de Deusa e ela seria reduzida a algo que não é. 
     Seja qual for sua origem, talvez indígena, Kali surge na tradição com uma reverência e impulso muito maior do que se atribui aos demais deuses. Ela não é um mero epíteto ou aspecto de outra Deusa. Ela foi concebida como o poder (Shakti) do Tempo (Kala). Como Kala, Ela permeia todas as coisas, manifestas ou ocultas. Os Puranas percebem Kali como a cólera personificada de Durga – a incorporação da fúria – mas de qualquer forma Ela é sua verdadeira Shakti. Mesmo furiosa, Durga invoca Kali para realizar o que ela própria não consegue fazer. Depois que Durga separa Kali de si própria e Kali emerge com sua própria forma – um ser independente – Ela reina suprema em todo o panteão Hindu, com relação ao seu poder de destruir e vencer os inimigos. 
     Kali não é meramente o poder de Durga, ela também foi concebida como o aspecto dinâmico do Senhor Shiva. Em uma relação deliciosa, o "a" de Shava e Kala nega o que é realizado pelo "i", o componente principal de Shiva e Kali. Shava é o corpo sem vida, aquilo que sobra no universo manifesto quando o Poder do Tempo o toma sob seu controle, e Kala é o que se revela apenas no aspecto manifesto do universo, e assim ambos são limitados. Quando o "i", simbólico da energia feminina, que se manifesta como Kali, se une a eles e transforma Shava em Shiva e Kala em Kali, ambos emergem como ilimitados, atemporais. Este universo está contido em Shiva, e assim, nele ocorre a transição do que é temporal para o atemporal. Kali, que é o Poder do Tempo, não sofre essa transição.

Kali unida a Shiva / Shava
 
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